"Navegue por seus sonhos, mas tenha um porto seguro. Finque suas raízes em solo fértil que lhe garanta bons frutos no futuro." - G. Nobio.

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24 de julho de 2012

Samba-Funk Da Pesada

"Tio Sam ainda confundia samba com rumba naquela época, mas a tal mistura de chiclete com banana cantada por Jackson Do Pandeiro - e posteriormente por Gilberto Gil - ganhou a sua melhor expressão na Banda Black Rio.

Samba, funk, jazz, gafieira: uma arrebatadora simbiose sonora como poucas vezes se ouviu no Brasil.

Maria Fumaça (1977), álbum de estréia do grupo, continua insuperável [clique aqui para ouvir!]. Tanto que nos anos 90 DJs e músicos londrinos da cena acid jazz descobriram seu som. A Banda Black Rio é uma das fontes onde beberam grupos como Incognito, Brand New Heavis e James Taylor Quartet. Pena que a Banda Black Rio tenha encerrado suas atividades em 1984, quando seu fundador e mentor, o saxofonista Oberdan Magalhães, morreu num acidente de automóvel.

No Brasil, apesar de cultuada por alguns poucos, a banda penou para sobreviver. E sofreu ataques pesados de críticos xenófobos que não percebiam a singular e original receita criada por aqueles cobras. Para rebater tais cobranças nacionalóides, Oberdan costumava lembrar Pixinguinha e seus Oito Batutas, que já nos anos 20, também beberam do jazz sem demérito algum. Formado na tradição dos grupos de bailes nos subúrbios cariocas, Oberdan liderou nos anos 60 o Impacto 8. Depois passou pelo grupo Abolição, do pianista Don Salvador (músico que a partir do início dos anos 70 se radicou nos EUA), no qual também tocavam o baterista Luiz Carlos Santos, o trombonista Lúcio J. da Silva e o trompetista J. Carlos Barrosinho. Com eles, o saxofonista partiria para a Banda Black Rio, completada pelo guitarrista Cláudio Stevenson (o único branco da turma, que também morreu precocemente em 1985), Jamil Joanes (baixo) e Cristóvão Bastos (teclados).

A primeira e melhor formação da BBR gravou, entre o final de 1976 e o começo de 1977, este Maria Fumaça. Liminha, que depois se afirmaria como o principal produtor do pop brasileiro, tinha acabado de entrar para a então nascente Warner brasileira e cuidou da produção. No disco ele está creditado como diretor de estúdio. A faixa-título e de abertura, assinada por Oberdan e Luiz Carlos, dá uma boa noção do que o álbum traz: naipes de metais suingados trocando figurinhas com a guitarra soul carioca de Stevenson e a cuíca de um dos quatro percussionistas da sessão rítmica; o baixo funk manemolente de Jamil; a bateria nota dez de Luiz Carlos e os teclados jazzísticos de Cristóvão (que na época já tocava com Paulinho Da Viola).

Eles alternaram temas originais, como Mr. Funky Samba (de Joanes), Caminho da Roça (de Oberdan e Barrosinho), Metalúrgica (de Stevenson e Bastos), Leblon Via Vaz Lobo (de Oberdan) e a balada Júnia (de Joanes), com clássicos da MPB. Na Baixa do Sapateiro (de Ary Barroso), por exemplo, é a síntese do samba-jazz-funk que marcaria a receita da banda. Enquanto Casa Forte (de Edu Lobo), com sua alternância de ritmos, concretiza muito do que os adeptos de fusion algum dia sonharam fazer.

Depois de Maria Fumaça, a primeira formação da BBR começaria a se desfazer. Até seu fim, em 1984, mais de 15 músicos passaram pelo grupo, que lançou ainda Gafieira Universal (1978) e Saci Pererê (1980). Ambos com ótimos momentos, mas sem a magia e a perfeição do seu clássico de estréia."

Resenha escrita por Antônio Carlos Miguel. Publicada na coluna Discoteca Básica da extinta revista ShowBizz em 1997.

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